Mário Ferreira da Silva – Escultor Ceramista

IMG_4208

Mário Ferreira da Silva

Mário Ferreira da Silva nasceu em Vila Nova de Gaia, em 1934. Com mais de 50 anos de actividade criativa é sem dúvida o autor mais representativo dos escultores ceramistas em Portugal.

Em 1957, termina na Escola Industrial e Comercial de V. N. de Gaia o Curso de Ceramista iniciando o seu percurso profissional na área da cerâmica industrial, actividade que lhe permite desenvolver a sua capacidade criativa, efectuando estudos e ensaios do comportamento e transformação da matéria cerâmica, como meio de expressão plástica.

Aos 28 anos é já presença habitual nos “Salões dos Novíssimos” e nas exposições do S.N.I., tendo já realizado algumas exposições individuais e coletivas em Portugal e no Estrangeiro, nas quais vê com frequência o seu trabalho premiado. Parte como bolseiro da Fundação Gulbenkian para Faenza , Itália, onde frequenta o Instituto de Arte Cerâmica Gaetano Balardinia e uma complementar formação de escultura em Perugia. Entre 1964 e 1970 viaja pela Alemanha, Suíça, Holanda, Inglaterra, Espanha e França onde contacta com a realidade da escultura em cerâmica e com diversos autores de destaque, como Carlos Zauli, Biancini, Nino Caruso, etc.

É em 1971 que a consagração Internacional é atingida, quando se desloca a Nova Iorque e Washington para dirigir a colocação de 80 painéis cerâmicos da sua autoria, tendo como tema “a Azulejaria Tradicional Portuguesa e os Descobrimentos”, encomendados pelo Governo Português para o Fitzgerald Kennedy Center for the Performing Arts . Tem aí a oportunidade de reencontrar e conviver com o Arquitecto Edoard Sttone, autor do projecto arquitectónico.

Os prémios Internacionais sucedem-se, em 1973 é-lhe atribuída a medalha de Ouro no 31 Concorso Internazionale della Ceramica di Arte di Faenza em Italia, em 1974, em Vallauris (França), é-lhe atribuído um prémio de honra na Quatriéme Biennale Internationale de Céramique d’Art.

Na década de 80 chegam as grandes encomendas públicas nacionais, destacando-se, entre outros, a concepção e realização de um Mural Relevado em Grés Cerâmico Policromado para o “Paramento do Baptistério da Nova Igreja de Ermesinde” (1980-81). Já nos anos 90 assume particular relevância a concepção e execução de um mural cerâmico com 45 m de comprimento para a nova estação da C. P. de Ermesinde em 1998,

IMG_4210

 Altar Mor da Nova Catedral de Bragança Mural em baixo e alto relevo Grés chamotado policromado 13 750X 12 750 cm

bem como a sua obra mais emblemática a execução de um painel relevado e com motivos tridimensionais para o “Paramento do Altar Mor da nova Catedral de Bragança” (1999/2000), esta obra executada em grés chamotado policromado tem como dimensões 13 750 X 12 750 cm (cerca de 180 m2);

Em 2001/2002, em parceria com o escultor ceramista italiano Nino Caruso participa na concepção e execução de uma escultura monumental em grés monocozedura, alusiva aos XX séculos de história da cidade de Coimbra constituído por 20 colunas modulares, módulos positivos e negativos.

De 1978 a 1980, foi professor de Cerâmica na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, no Porto. Em 1994, torna-se responsável pela regência do curso de licenciatura em Cerâmica EUAC, em Coimbra.

Tem a sua obra assinalada em obras de referência da escultura em cerâmica moderna e contemporânea, como “New directions in ceramics”, “L’Art de la Ceramique Aujourd’hui dans le Monde”, “Maestri della Ceramica Moderna”, “A collection of World Famous Ceramic Art Studios”, etc.

15B_web

“Jarra Policromada” Autor: Mário Ferreira da Silva Anos 70 Material: Grés Cerâmico Chamotado – 1180º Medidas: 14 x 40 cm

Está representado em diversos museus nacionais e estrangeiros, bem como em numerosas colecções particulares na Europa, África, Asia e Américas. Realizou diversos murais para entidades oficiais e privadas. Tem participado, como convidado, em diversos seminários e congressos em Portugal e no estrangeiro. Em 1990 promoveu e realizou o 1º Seminário Internacional de Cerâmica – Gaia 90, em Vila Nova de Gaia.

Desde 1973 é Membro titular da “Académie Internationale de la Céramique”, órgão consultivo da UNESCO, com sede em Genebra.

 

17B_web

“Forma Labiríntica” Autor: Mário Ferreira da Silva Ano: 2006 Material: Grés Cerâmico Chamotado – 1180º Medidas: 20x40x17cm

O Grês e a Técnica

 

“Para que uma peça de cerâmica exista, não basta o talento de a conceber. Dá-se, antes dela, uma batalha tremenda em que se afrontam como no começo dum mundo, terra, fogo, ar e água. O poeta conduz a estratégia desta tragédia, ou é vitima dela. Nascem de pois as personagens: o grés que é o “pai nobre”, capaz de brutezas de gestos admiráveis… a 1200-1300 graus é a temperatura na qual vale a pena passar-se este diálogo, quando o carvão aceso já se parece com os diamantes. ..

(…)O Mário Silva sabe isto melhor do que eu, melhor do que nós seus espectadores…fala como artista na sua língua oficinal de manipulador do fogo e do barro. Não traduz para a cerâmica: exprime-se nela naturalmente. É esta a sua virtude maior.”

António Pedro

Dezembro de 1963

Texto do catálogo da exposição de Mário Ferreira da Silva na Galeria Tempo em Lisboa e Galeria Dois no Porto

 

O GRÉS: um ” NOVO “ MATERIAL DOS ANOS “ 50

Com o nome de grés, entende-se uma pasta cerâmica que submetida a uma temperatura na ordem dos 1200ºC, atinge uma ampla fase vitrosa, pelo que depois de ser cosida, apresenta uma baixa porosidade, e por isso, (impermeabilidade ou semi-impermeabilidade), alta resistência ao choque e resistência ao ataque químico.

Por tais propriedades é de longa data utilizado para usos industriais, particularmente tubagens, revestimento de recipientes, situações de parte de estruturas expostas ao ataque químico, etc..

Este tipo de grés aparece na história da cerâmica, pela primeira vez na China do XVI sec. a.C.; Na Europa, no XI século e especificamente na Alemanha, onde   se inicia a fabricação de vasilhame(“STEINZEUG” Objectos de Pedra) prática que se estende depois à França, à Holanda e particularmente à Inglaterra (sec. XVII e XVIII ), é aí ,o ponto de partida para um longa e enigmática caminhada.

É em Itália nos anos 50 / 60 e particularmente no laboratório tecnológico do Instituto de Arte Cerâmica Gaetano Ballardini, em Faenza, que como fruto de uma apurada investigação, se descobrem as reais potencialidades e possibilidades de um NOVO GRÉS para um novo mundo da arte cerâmica. Afortunadamente, é neste período que Mário Ferreira da Silva se encontra no Instituto (1962-1963) como Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, em cujo Laboratório Tecnológico se desenvolvem e implementam cuidadas investigações quer das pastas, como dos esmaltes e revestimentos, que também serviam aos ensaios de produção referentes ao sector artístico, em simultâneo desenvolvimento. Os aspectos matéricos que se investigaram, foram inicialmente aplicados ás formas tradicionais e à tendência artística que se vinha afirmando no mundo da cerâmica.

Os conhecimentos teóricos (a pesquisa dos materiais, ao nível da sua composição e formulação das pastas, o domínio das temperaturas de cozedura e dos vidrados) possibilitam a utilização do grés em perspetivas inovadoras que ultrapassavam a fase embrionária do grés vidrado em Portugal. O paradigma da pintura cerâmica ou da cerâmica como suporte para a pintura é eliminado, a cor já não é o fundamento necessário da cerâmica, o afastamento do funcionalismo historicista e a assunção de critérios meramente artísticos onde a escultura impera.

No mágico universo da cerâmica, o grés possiblita agora o sonho e o imaginário na bi e na tri dimensionalidade.

19_web

“Transformação de Um Cubo II” Autor: Mário Ferreira da Silva Ano: 1976 Material: Grés Cerâmico Chamotado – 1160º Medidas: 50x30x30cm

As características que o grés possui, tornam hoje possível a execução de peças de grandes volumes, com grande resistência mecânica ao choque e com baixíssima porosidade, permitindo por isso a sua exposição ás condições mais adversas.

Tudo isto é apenas possível graças ao domínio perfeito da composição das pastas (caulino, argila plástica, feldespatos e inertes) e as altas temperaturas de fusão (1100 a 1400 C) que permitem ainda a obtenção de uma variada panóplia de cores e texturas através da correcta utilização dos óxidos metálicos.

O desenvolvimento e a pesquisa constante de novas técnicas permitem a reafirmação do paradigma da escultura, utilizando a técnica do decalque por impressão ou sobre impressão, na superfície das pastas ainda no estado plástico, conseguem-se ainda novas linguagens .

A possível ancoragem com suportes de ferro permite agora concretizar a realização de obras de grandes dimensões, como é o exemplo das escultura concebida por Mário Ferreira da Silva para o antigo Banco Português do Atlântico em 1973, com 3 metros de comprimento por 1,5 metros de altura e 40 cm de largura e o Sacrário da Nova Catedral de Bragança, no ano 2000, forma tridimensional, com as dimensões de 2,37 X 2.37 X 0,37 metros.

IMG_4213

Escultura para o antigo Banco Português do Atlântico, Porto 1973 Grés policromado-1250 C Dimensoes-300x150x40 cm

IMG_4214

Baixo Relevo – Casa Gomes Guerra, Vila Nova de Gaia, 1973/74. Grés Cerâmico Policromado, 1250ºC. Dimensões: 500x300cm

 

Principais Representações

1958 – I Salão de Arte Mineira do Pejão; 1960 – Centro Ramalho Ortigão; 1959/60/61/62/64 – I, II, III, IV e V Salão dos Novíssimos – Portugal; 1961 – Bienal do Kiln Club, Washington – USA; 1962 – I Exposição Internacional de Cerâmica Moderna, Buenos Aires e Mar del Prata – Argentina; 1965 – Salão dos Artistas premiados, S.N.I. – Portugal e Pavilhão Português da Exposição Comemorativa do IV Centenário do Rio de Janeiro – Brazil; 1966/67/68/69/70/73 – I, II, III e IV Salão Nacional de Arte Moderna – Portugal; XXIV, XXV, XXVI, XXVII e XXXI Concurso Internacional de Cerâmica de Arte, Faenza – Itália; 1969 – Exposição de Homenagem a Amadeo de Souza Cardoso, Amarante e Porto – Portugal; “Internationals Kunsthandwerk”, Estugarda – Alemanha; 1970 – Exposição Itinerante de cinco artistas premiados pela S.E.I.T. – Portugal; 1972 – Exposição Internacional de Cerâmica Moderna, Albert and Victo- ria Museum, Londres – Reino Unido; 1975 – II Encontros Internacionais de Arte em Portugal – Viana do Castelo; 1978 – “Concorso Internazionale Della Ceramica d’Arte Contemporanea” – Faenza – Itália; 1980 – “6éme Biennale Interna- tionale de Céramique d’Art”, Vallauris – França; 1981 – Cerâmica Contemporânea Portuguesa, Estoril – Portugal; 1980/82/84 – Bi- enais de Vila Nova de Cerveira – Portugal; 1987 – Primeira Bienal Internacional de Cerâmica de Óbidos – Portugal; 1989 – Primeira Bienal Internacional de Cerâmica Artística – Aveiro – Portugal – participação como artista convidado; Embaixada de Portugal em Maputo – Moçambique – a convite do ICEP; 1990 – Exposição de Arte Cerâmica Contemporânea Portuguesa, no 1o Seminário Internacional de Cerâmica, Gaia 90 – Portugal; 1991 – Exposição “MEDIA TERRA” em FHARE-SUD – Centre Européen des Métiers de l’Art Contemporaine – GRUISBAN – França – 20 Ceramistas de 5 países mediterrâneos; – 1999 – III Bienal de arte – Vila Real – Portugal – subordinada ao tema “O Adeus ao Escudo, Os Portugueses em Portugal, na Europa e com o Euro”- iniciativa da Fundação Cupertino de Miranda – Portu- gal. 2003 – 4o Prémio Amadeo de Souza Cardoso. 2004 – 1st European Ceramics Competition – Amarousion – Grécia integrada nas manifestações paralelas aos Jogos Olímpicos 2004; 2007– Participa como artista convidado na”XIV Bienal Internacional de Arte” de Vila Nova de Cerveira; 2008– participa como artista estrangeiroconvidado na”XIIIEdizione della manifestazione artística delle Vaselle D’Autore peril Vino Novelle” em TORGIANO Província de Perugia, ITÁLIA.

 

18B_web

“Espaço em Fuga” Autor: Mário Ferreira da Silva Ano: 1991 Material: Grés Cerâmico Chamotado – 1180º Medidas: 34 x 40 x 18 cm

 

Exposições Individuais:

1961 – Galeria Divulgação, Porto e S.N.I, Lisboa

1962 – Centro de Artes Plásticas da Associação Académica de Coimbra;

1964 – Galeria Divulgação, Porto e Ateneu Comercial do Porto;

1968 – S.E.I.T, Lisboa

1971 – Galeria Alvarez, Porto

1973 – Galeria Alvarez e Galeria Paisagem, Porto

1975 – Galeria Abel Salazar, Porto

1978 – Galeria Tempo, Lisboa | Galeria Dois, Porto

1979 – Museu Tavares Proença Júnior, Castelo Branco

1980 – Galeria de Verão – Palácio de Cristal, Porto

1981 – Casa Museu Teixeira Lopes, Vila Nova de Gaia

1983 – Galeria JN, Porto

1986 – Galeria Dois, Porto e Galeria “O Primeiro de Janeiro”, Coimbra

1990 – Casa Museu Teixeira Lopes, Vila Nova de Gaia | Museu Amadeo Sousa Cardoso, Amarante

1991 – Galeria da Praça, Porto

1992 – Galeria Áfritique, Maputo, Moçambique

2001 – Exposição na Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal, promovida pelo Rotary Club de Vila Nova de Gaia

2007 – Casa Museu Teixeira Lopes, Vila Nova de Gaia | Museu Grão Vasco, Viseu

2009 – Casa Museu Teixeira Lopes, Vila Nova de Gaia – “Instalação em Cerâmica” – “Natureza Morta”

2010 – Casa da Cultura, Vila Nova de Gaia – “Poeiras do Tempo” – Mostra Temática

2014 – Casa Museu Teixeira Lopes, Vila Nova de Gaia

 

24_web

“Superfície com Esferas” Autor: Mário Ferreira da Silva Ano: 1974 Material: Grés Cerâmico Chamotado – 1180º Medidas: 59 x 43 cm

Prémios

1957 – Prémio Fábrica de Porcelana da Vista Alegre e Prémio Mestre Joaquim Lopes – Portugal;

1961 – Prémio Nacional Sebastião de Almeida – “Salão dos Novíssimos

1969 – Prémio Nacional de Cerâmica – “Salão Nacional de Arte”

1973 – Medalha de Ouro no “ XXXI Concorso Internazionale della Ceramica D` Arte” – Faenza, Itália;

1974 – Diploma de Honra na “Quatrième Biennale Internationale de Céramique d’Art”, Vallauris, França;

1979 – “ Prémio Rafael Bordalo Pinheiro “ – Caldas da Rainha, Portugal;

1989 – Menção Honrosa na “ 1ª Bienal Internacional de Cerâmica de Aveiro” , Portugal;

2000 – Menção Honrosa no “Prémio Nacional de Homenagem ao Escultor Aureliano Lima”.

 

Advertisements

Leave a comment

Filed under Uncategorized

PORQUÊ PAGAR 1.241.300 EUROS POR UMA MESA?

mesa

 

Qualquer dúvida que possa existir sobre a força do mercado do Design do período do pós guerra do séc. XX terá sido por certo dissipada no passado dia 19 de Maio, no leilão de Design da casa francesa Artcurial, no qual uma mesa da autoria de Jean Prouvé, conhecida por mesa “Trapézio” de 1956, pulverizou o anterior valor record de venda de uma peça deste autor,  tendo sida adquirida por um colecionador norte americano pelo surpreendente valor de 1.241.300 Euros, triplicando assim a estimativa base de leilão.

fotografia 1

 

A que devemos atribuir esta espantosa situação na qual uma mesa fabricada em série há 60 anos para um campus universitário alcança valores que normalmente são apenas atingidos por peças de mobiliário francesas do séc. XVIII, exemplares únicos feitas por grandes mestres ebanistas, realizados geralmente por encomenda para a nobreza e cuja proveniência pode ser facilmente identificada nos últimos 200 anos?

Um dos factores que por certo justificarão o atingir deste valor será sem dúvida a importância de Jean Prouvé. As suas criações são inseparáveis do movimento moderno de meados do séc. XX; a sua colaboração com Le Corbusier e Charlotte Perriand aliada ás respostas funcionais e esteticamente apelativas realizadas num período de grande crescimento económico em França, permitem classificar este homem, que começou a sua atividade profissional como ferreiro, como um verdadeiro visionário do séc. XX.  A sua obra criativa, sensível às mudanças que então aconteciam na Europa do pós guerra, deixaram marcas permanentes. Jean Prouvé via-se como alguém que deveria contribuir fundamentalmente para o bem público, a construção em massa de mobiliário para escolas, hospitais, instituições públicas permitiu-lhe concretizar a sua visão de um mundo novo no qual o criador produz obras em plena consciência de um contexto social, económico e político em mutação.

fotografia 2

 

Factor também importante para este resultado prende-se com o facto de um cada vez maior número de colecionadores de Arte Contemporânea procurarem rodear-se de peças de mobiliário que permitam estabelecer diálogos com as suas obras de Arte. Não é por acaso que um número significativo de licitadores neste leilão eram colecionadores de Arte, que por um décimo do valor de uma obra de Arte de qualquer respeitável estrela do Mundo da Arte mundial, conseguem adquirir uma peça rara do Design Mundial.

Não menos importante que os dois argumentos anteriores é o fator MODA. O Design do séc. XX é claramente a tendência da moda, particularmente o movimento moderno de meados do século.  As criações de nomes como os americanos Charles Eames, George Nelson, Isamo Noguchi fazem hoje parte dos quadros de referência da estética contemporânea. A famosa Lounge Chair do casal Eames é presença constante em filmes e anúncios, sendo um objeto “must have” de toda uma geração que tem nesta altura entre os 30 e os 40 anos (que na maior parte das vezes conhece a cadeira mas não consegue identificar o nome dos seus autores). Num circulo mais restrito do colecionismo mundial, as peças de mobiliário de Jean Prouvé são facilmente identificadas por todos os pares, a garantia de valor intrínseco está presente e objetivamente tratam-se de peças de excepção.

Por último temos que ter presente que estamos perante a uma peça de excecional. A mesa Trapézio foi feita para a cidade universitária Jean Zay em Anthony, França, em 1956. Foram feitos poucos exemplares com estas dimensões e o estado de conservação da mesa é exemplar. O que distingue esta mesa de outras desenhadas por Prouvé são as suas formas quase esculturais.  As pernas da mesa realizadas totalmente em metal  apresentam formas aerodinâmica cujas linhas remetem para elementos de aeronáutica, uma das grandes paixões de Prouvé, que lhe conferem uma ligeireza inesperada para uma mesa de tão grandes dimensões.

fotografia 3

 

Encontravam-se assim reunidos todos os pressupostos para o estabelecimento de um novo valor record:

Um Designer icónico;

Um mercado ávido;

Uma tendência;

Uma peça de excepção.

Aqui, neste cantinho á beira mar plantado, resta-nos olhar com espanto para estes acontecimentos.

Não posso deixar de fazer referência a uma curiosidade ocorrida no último leilão da Cabral e Moncada de Arte Moderna e Contemporânea do passado dia 5 de Maio  onde o lote 40, “Par de mesas de apoio” com uma estimativa de 200-300 euros, eram nada mais nada menos que  um conjunto de mesas desenhadas por Lucien Donnat no final dos anos 60,  muito provavelmente  encomendadas pelo Rei Humberto de Itália para a sua casa de Cascais. Foram arrematadas por 240 Euros! Os meus parabéns ao comprador.

Mesas Lucien Donnat

 

Carlos Bessa Pereira

 

 

 

Leave a comment

Filed under Uncategorized

José Espinho e uma Rara Cadeira Icónica

BP 197 cópia copy (1)

 

Figura preponderante da Primeira Geração de Designers Portugueses, formado na Escola António Arroio, José Espinho (1917-1973) revelou, por volta de 1960, uma depurada e racionalista linguagem de Design que acertou o panorama do design português com o tempo internacional.

Projectista, desde 1950, de todo o mobiliário fornecido pela prestigiada firma Móveis Olaio, homem prático, de trabalho e de apurada consciência de designer, José Espinho visitou os grandes certames industriais escandinavos que actualizaram a sua formação.

Tal maturidade revelou-se com pujança, em 1960, quando, ao modelo fordista de matriz germânica de produção da Empresa, acresceu uma linguagem depurada e definitivamente acertada de inspiração nórdica, desde logo evidente na actualização dos materiais.

Stand Olaio, Anos 60, Linha Pratic

Stand Olaio, Anos 60, Linha Pratic

A faia clara fez a sua sensacional aparição no mercado português, proverbialmente conservador mas conhecedor também, então, de um optimista surto industrial que os Planos de Fomento propiciavam, a depuração estilística de inspiração nórdica, moderna, prática e racional, levava definitivamente à simplificação de linhas estruturais do novo mobiliário em madeira: José Espinho percebeu-o e desenhou a icónica Cadeira Pratic, de linhas simples e funcionais, excelente peça com estrutura de faia inglesa de cor clara e apoios de estrutura circular, generosamente estofada e revestida a confortável tecido.

Cadeira Pratic José Espinho

 

Da mesma data data a icónica cadeira Modelo Brasil, em undianuno preto, menos revolucionário, embora com estofos revestidos a napa clara.

Cadeirão Modelo Brasil

Cadeirão Modelo Brasil

 

Perfeitamente afim da icónica Cadeira Pratic é o presente modelo, de repouso, embora com uma estrutura prismática simples de recorte mais plástico ao nível dos braços.

Estaremos então, perante um protótipo ou uma edição em pequena série que, demasiada avançada e visionária para o meio conservador em virtude de o estofo do encosto traseiro se encontrar solto da estrutura de madeira das costas, funcionando apenas graças ao sólido apoio que a gravidade proporciona, terá conhecido escassíssima edição.

Cadeira Pratic

 

Marcas autorais como o original, simples e visual e estruturalmente plástico recorte quadrangular do remate, definindo um quadrilátero através de simples réguas lisas, afinam, notavelmente, com uma tradição de equilíbrio na arquitectura e no design portugueses que podemos, se o desejarmos, remontar à clareza funcional da arquitectura Portuguesa Chã ou Pombalina.

Estaremos, então, perante um Design que pela primeira vez em Portugal adquiriu identidade própria, tal como Daciano da Costa o fará em 1962 com as prestigiadas Linha Prestige e Cortez, de vastíssima produção, porém, no contexto cultural mais Moderno e actualizado.

Trata-se, portanto esta Cadeira, de uma Obra-Prima do Primeiro Design Português.

Rui Afonso santos

Curador de Arte e Design

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Coleccionar Design

Ao dar início ao nosso Blog “Coleccionar Design” é objetivo da Galeria proporcionar aos seus seguidores um espaço de troca de informação sobre o que em Portugal e no mundo vai sucedendo de importante relacionado com o acto de coleccionar Design de mobiliário do séc. XX.

As colecções de Design, tal como a disciplina em si, são relativamente recentes. Regra geral, todas as colecções de peças de mobiliário e objectos surgem directamente de uma lógica de decoração de ambientes. No séc. XX, as colecções que se formam acabam por reproduzir as tendências ou modas que ao longo do século se foram sucedendo: ao mobiliário de estilo, Luís XV, XVI e Império, sucede a Arte Noveau e em particular a Arte Deco, ao qual se segue o Design moderno (pós guerra) ou Contemporâneo.

O fim de uma tendência e passagem para a próxima coincide sempre com o aumento de preços exponencial das melhores peças que resulta do aumento da procura e consequente diminuição da oferta, devido ao cada vez maior número de coleccionadores que seguem este ditame da moda. É neste momento que o colecionador procura alternativas que estão, regra geral, sempre no período histórico que se segue: aí o terreno é ainda virgem e as oportunidades abundam, mas com esta mudança inicia-se um novo ciclo e uma nova moda e o fechar do ciclo anterior cria um novo que acabará exactamente da mesma forma.

Assim, se nos anos 70 e 80 do século passado as peças Deco constituíam o paradigma do coleccionador que procurava reunir as melhores peças de Ruhlmann, Adnet, Poillerat e onde celebridades como Yves Saint Laurent e Andy Warhol pontificavam tornando as suas casas verdadeiros museus deste período, com a entrada nos anos 90 e a cada vez maior dificuldade de encontrar peças de nível excepcional (quando apareciam no mercado ultrapassavam sempre a fasquia do milhão de euros) os coleccionadores começaram a olhar para alternativas.

Maison YSL

Casa de Yves Saint Laurent em Paris, em meados dos anos 90, onde se vê a cadeira da Eileen Gray “Chaise aux dragons” que fez o record mundial de uma peça de Design

 

O que vinha à frente do Deco? O mobiliário Moderno do pós guerra. No início dos anos 90, os visionários ou “trend setters” começaram a adquirir peças de Jean Prouvé ou Charlotte Perriand a preços de 100 e 200 € que hoje atingem em leilões valores superiores aos 100.000 €. Recordo-me por volta de 1992 estar em Paris com um antiquário meu amigo especializado no séc. XVIII francês e que passeando pelo Marche aux Pouces me dizia que não conseguia entender como é que alguém era capaz de dar dinheiro por um pedaço de madeira de contraplacado forrada a fórmica com pés em metal. Tratava-se de uma secretária de Jean Prouvé que hoje vale cerca de 20.000 a 30.000 €.

 

secretária do Jean Prouvé modelo "Compas" cerca de 1950

Secretária de Jean Prouvé, modelo “Compas”, cerca de 1950

 

Curiosamente podemos estabelecer algumas analogias entre a situação descrita e o Design português. Tendo passado completamente ao lado, a falta de interesse e procura por parte de coleccionadores faz com que seja possível encontrar hoje com relativa facilidade peças a preços ainda irrelevantes, quando comparados com o seu  valor histórico. É também inexplicável como a maior parte dos Designers portugueses do período do pós Guerra são ainda hoje completamente desconhecidos. Nomes como Daciano da Costa, José Espinho, António Garcia, Eduardo Afonso Dias, Carmo Valente, Carlos Galamba apenas são familiares a meia dúzia de investigadores universitários ou amigos e colegas de profissão. Julgo que devido à dimensão do nosso mercado não se repetirá o que se verificou com Charlotte Perriand, os Eames, Jean Prouvé, Gio Ponti, Carlo Molino, Paul Evans, George Nakashima e outros. Estou no entanto certo que muitas das peças que foram produzidas pelos nossos Designers no período entre 1950 e 1970, particularmente aquelas que foram feitas para projectos específicos ou objecto de produção única, verão os seus valores aumentarem de forma galopante nos próximos anos.

Mesa de Jantar portuguesa da autoria de Eduardo Anahory, exemplar único feito para a casa do próprio no inicío dos anos 70.

Mesa de Jantar portuguesa da autoria de Eduardo Anahory, exemplar único feito para a casa do próprio no inicío dos anos 70.

Leave a comment

Filed under Uncategorized