Monthly Archives: April 2014

José Espinho e uma Rara Cadeira Icónica

BP 197 cópia copy (1)

 

Figura preponderante da Primeira Geração de Designers Portugueses, formado na Escola António Arroio, José Espinho (1917-1973) revelou, por volta de 1960, uma depurada e racionalista linguagem de Design que acertou o panorama do design português com o tempo internacional.

Projectista, desde 1950, de todo o mobiliário fornecido pela prestigiada firma Móveis Olaio, homem prático, de trabalho e de apurada consciência de designer, José Espinho visitou os grandes certames industriais escandinavos que actualizaram a sua formação.

Tal maturidade revelou-se com pujança, em 1960, quando, ao modelo fordista de matriz germânica de produção da Empresa, acresceu uma linguagem depurada e definitivamente acertada de inspiração nórdica, desde logo evidente na actualização dos materiais.

Stand Olaio, Anos 60, Linha Pratic

Stand Olaio, Anos 60, Linha Pratic

A faia clara fez a sua sensacional aparição no mercado português, proverbialmente conservador mas conhecedor também, então, de um optimista surto industrial que os Planos de Fomento propiciavam, a depuração estilística de inspiração nórdica, moderna, prática e racional, levava definitivamente à simplificação de linhas estruturais do novo mobiliário em madeira: José Espinho percebeu-o e desenhou a icónica Cadeira Pratic, de linhas simples e funcionais, excelente peça com estrutura de faia inglesa de cor clara e apoios de estrutura circular, generosamente estofada e revestida a confortável tecido.

Cadeira Pratic José Espinho

 

Da mesma data data a icónica cadeira Modelo Brasil, em undianuno preto, menos revolucionário, embora com estofos revestidos a napa clara.

Cadeirão Modelo Brasil

Cadeirão Modelo Brasil

 

Perfeitamente afim da icónica Cadeira Pratic é o presente modelo, de repouso, embora com uma estrutura prismática simples de recorte mais plástico ao nível dos braços.

Estaremos então, perante um protótipo ou uma edição em pequena série que, demasiada avançada e visionária para o meio conservador em virtude de o estofo do encosto traseiro se encontrar solto da estrutura de madeira das costas, funcionando apenas graças ao sólido apoio que a gravidade proporciona, terá conhecido escassíssima edição.

Cadeira Pratic

 

Marcas autorais como o original, simples e visual e estruturalmente plástico recorte quadrangular do remate, definindo um quadrilátero através de simples réguas lisas, afinam, notavelmente, com uma tradição de equilíbrio na arquitectura e no design portugueses que podemos, se o desejarmos, remontar à clareza funcional da arquitectura Portuguesa Chã ou Pombalina.

Estaremos, então, perante um Design que pela primeira vez em Portugal adquiriu identidade própria, tal como Daciano da Costa o fará em 1962 com as prestigiadas Linha Prestige e Cortez, de vastíssima produção, porém, no contexto cultural mais Moderno e actualizado.

Trata-se, portanto esta Cadeira, de uma Obra-Prima do Primeiro Design Português.

Rui Afonso santos

Curador de Arte e Design

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Coleccionar Design

Ao dar início ao nosso Blog “Coleccionar Design” é objetivo da Galeria proporcionar aos seus seguidores um espaço de troca de informação sobre o que em Portugal e no mundo vai sucedendo de importante relacionado com o acto de coleccionar Design de mobiliário do séc. XX.

As colecções de Design, tal como a disciplina em si, são relativamente recentes. Regra geral, todas as colecções de peças de mobiliário e objectos surgem directamente de uma lógica de decoração de ambientes. No séc. XX, as colecções que se formam acabam por reproduzir as tendências ou modas que ao longo do século se foram sucedendo: ao mobiliário de estilo, Luís XV, XVI e Império, sucede a Arte Noveau e em particular a Arte Deco, ao qual se segue o Design moderno (pós guerra) ou Contemporâneo.

O fim de uma tendência e passagem para a próxima coincide sempre com o aumento de preços exponencial das melhores peças que resulta do aumento da procura e consequente diminuição da oferta, devido ao cada vez maior número de coleccionadores que seguem este ditame da moda. É neste momento que o colecionador procura alternativas que estão, regra geral, sempre no período histórico que se segue: aí o terreno é ainda virgem e as oportunidades abundam, mas com esta mudança inicia-se um novo ciclo e uma nova moda e o fechar do ciclo anterior cria um novo que acabará exactamente da mesma forma.

Assim, se nos anos 70 e 80 do século passado as peças Deco constituíam o paradigma do coleccionador que procurava reunir as melhores peças de Ruhlmann, Adnet, Poillerat e onde celebridades como Yves Saint Laurent e Andy Warhol pontificavam tornando as suas casas verdadeiros museus deste período, com a entrada nos anos 90 e a cada vez maior dificuldade de encontrar peças de nível excepcional (quando apareciam no mercado ultrapassavam sempre a fasquia do milhão de euros) os coleccionadores começaram a olhar para alternativas.

Maison YSL

Casa de Yves Saint Laurent em Paris, em meados dos anos 90, onde se vê a cadeira da Eileen Gray “Chaise aux dragons” que fez o record mundial de uma peça de Design

 

O que vinha à frente do Deco? O mobiliário Moderno do pós guerra. No início dos anos 90, os visionários ou “trend setters” começaram a adquirir peças de Jean Prouvé ou Charlotte Perriand a preços de 100 e 200 € que hoje atingem em leilões valores superiores aos 100.000 €. Recordo-me por volta de 1992 estar em Paris com um antiquário meu amigo especializado no séc. XVIII francês e que passeando pelo Marche aux Pouces me dizia que não conseguia entender como é que alguém era capaz de dar dinheiro por um pedaço de madeira de contraplacado forrada a fórmica com pés em metal. Tratava-se de uma secretária de Jean Prouvé que hoje vale cerca de 20.000 a 30.000 €.

 

secretária do Jean Prouvé modelo "Compas" cerca de 1950

Secretária de Jean Prouvé, modelo “Compas”, cerca de 1950

 

Curiosamente podemos estabelecer algumas analogias entre a situação descrita e o Design português. Tendo passado completamente ao lado, a falta de interesse e procura por parte de coleccionadores faz com que seja possível encontrar hoje com relativa facilidade peças a preços ainda irrelevantes, quando comparados com o seu  valor histórico. É também inexplicável como a maior parte dos Designers portugueses do período do pós Guerra são ainda hoje completamente desconhecidos. Nomes como Daciano da Costa, José Espinho, António Garcia, Eduardo Afonso Dias, Carmo Valente, Carlos Galamba apenas são familiares a meia dúzia de investigadores universitários ou amigos e colegas de profissão. Julgo que devido à dimensão do nosso mercado não se repetirá o que se verificou com Charlotte Perriand, os Eames, Jean Prouvé, Gio Ponti, Carlo Molino, Paul Evans, George Nakashima e outros. Estou no entanto certo que muitas das peças que foram produzidas pelos nossos Designers no período entre 1950 e 1970, particularmente aquelas que foram feitas para projectos específicos ou objecto de produção única, verão os seus valores aumentarem de forma galopante nos próximos anos.

Mesa de Jantar portuguesa da autoria de Eduardo Anahory, exemplar único feito para a casa do próprio no inicío dos anos 70.

Mesa de Jantar portuguesa da autoria de Eduardo Anahory, exemplar único feito para a casa do próprio no inicío dos anos 70.

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