PORQUÊ PAGAR 1.241.300 EUROS POR UMA MESA?

mesa

 

Qualquer dúvida que possa existir sobre a força do mercado do Design do período do pós guerra do séc. XX terá sido por certo dissipada no passado dia 19 de Maio, no leilão de Design da casa francesa Artcurial, no qual uma mesa da autoria de Jean Prouvé, conhecida por mesa “Trapézio” de 1956, pulverizou o anterior valor record de venda de uma peça deste autor,  tendo sida adquirida por um colecionador norte americano pelo surpreendente valor de 1.241.300 Euros, triplicando assim a estimativa base de leilão.

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A que devemos atribuir esta espantosa situação na qual uma mesa fabricada em série há 60 anos para um campus universitário alcança valores que normalmente são apenas atingidos por peças de mobiliário francesas do séc. XVIII, exemplares únicos feitas por grandes mestres ebanistas, realizados geralmente por encomenda para a nobreza e cuja proveniência pode ser facilmente identificada nos últimos 200 anos?

Um dos factores que por certo justificarão o atingir deste valor será sem dúvida a importância de Jean Prouvé. As suas criações são inseparáveis do movimento moderno de meados do séc. XX; a sua colaboração com Le Corbusier e Charlotte Perriand aliada ás respostas funcionais e esteticamente apelativas realizadas num período de grande crescimento económico em França, permitem classificar este homem, que começou a sua atividade profissional como ferreiro, como um verdadeiro visionário do séc. XX.  A sua obra criativa, sensível às mudanças que então aconteciam na Europa do pós guerra, deixaram marcas permanentes. Jean Prouvé via-se como alguém que deveria contribuir fundamentalmente para o bem público, a construção em massa de mobiliário para escolas, hospitais, instituições públicas permitiu-lhe concretizar a sua visão de um mundo novo no qual o criador produz obras em plena consciência de um contexto social, económico e político em mutação.

fotografia 2

 

Factor também importante para este resultado prende-se com o facto de um cada vez maior número de colecionadores de Arte Contemporânea procurarem rodear-se de peças de mobiliário que permitam estabelecer diálogos com as suas obras de Arte. Não é por acaso que um número significativo de licitadores neste leilão eram colecionadores de Arte, que por um décimo do valor de uma obra de Arte de qualquer respeitável estrela do Mundo da Arte mundial, conseguem adquirir uma peça rara do Design Mundial.

Não menos importante que os dois argumentos anteriores é o fator MODA. O Design do séc. XX é claramente a tendência da moda, particularmente o movimento moderno de meados do século.  As criações de nomes como os americanos Charles Eames, George Nelson, Isamo Noguchi fazem hoje parte dos quadros de referência da estética contemporânea. A famosa Lounge Chair do casal Eames é presença constante em filmes e anúncios, sendo um objeto “must have” de toda uma geração que tem nesta altura entre os 30 e os 40 anos (que na maior parte das vezes conhece a cadeira mas não consegue identificar o nome dos seus autores). Num circulo mais restrito do colecionismo mundial, as peças de mobiliário de Jean Prouvé são facilmente identificadas por todos os pares, a garantia de valor intrínseco está presente e objetivamente tratam-se de peças de excepção.

Por último temos que ter presente que estamos perante a uma peça de excecional. A mesa Trapézio foi feita para a cidade universitária Jean Zay em Anthony, França, em 1956. Foram feitos poucos exemplares com estas dimensões e o estado de conservação da mesa é exemplar. O que distingue esta mesa de outras desenhadas por Prouvé são as suas formas quase esculturais.  As pernas da mesa realizadas totalmente em metal  apresentam formas aerodinâmica cujas linhas remetem para elementos de aeronáutica, uma das grandes paixões de Prouvé, que lhe conferem uma ligeireza inesperada para uma mesa de tão grandes dimensões.

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Encontravam-se assim reunidos todos os pressupostos para o estabelecimento de um novo valor record:

Um Designer icónico;

Um mercado ávido;

Uma tendência;

Uma peça de excepção.

Aqui, neste cantinho á beira mar plantado, resta-nos olhar com espanto para estes acontecimentos.

Não posso deixar de fazer referência a uma curiosidade ocorrida no último leilão da Cabral e Moncada de Arte Moderna e Contemporânea do passado dia 5 de Maio  onde o lote 40, “Par de mesas de apoio” com uma estimativa de 200-300 euros, eram nada mais nada menos que  um conjunto de mesas desenhadas por Lucien Donnat no final dos anos 60,  muito provavelmente  encomendadas pelo Rei Humberto de Itália para a sua casa de Cascais. Foram arrematadas por 240 Euros! Os meus parabéns ao comprador.

Mesas Lucien Donnat

 

Carlos Bessa Pereira

 

 

 

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